Michel Foucault: libertário demais para ser de direita, conservador demais para ser de esquerda? (I)

Friday, 14 November 2008, 22:15 | Category : Uncategorized
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Embora este não seja um blog pós-estruturalista o nome de Michel Foucault aqui é bem vindo. Em alguns blogs a palvra “Foucault” é suficiente para causar anátemas, e mesmo blogs muito bons simplesmente proíbem qualquer menção ao nome do filósofo, como uma espécie de declaração de princípios (os quais não compreendo) ou talvez, como protesto contra algo que, para mim, não está claro.

Por que isso me incomoda? Em primeiro lugar porque eu sou um leitor de Michel Foucault.  Segundo, porque nunca me senti completamente à vontade com a vinculação entre Foucault <=> pós-modernismo <=> inconseqüência <=>  porraloquice  <=> conservadorismo político.

Michel Foucault (1926-1984)

Michel Foucault (1926-1984)

Para quem achou estranho o termo “conservadorismo político” acima, achando que leu errado, ou que eu me enganei, aviso: não me enganei, não.

Quando eu estava na graduação em história, ainda na primeira metade da década de 1990, a simples menção ao nome de Foucault era suficiente para que os marxistas ortodoxos de plantão ficassem furiosos. Não vou citar nomes dos meus professores da UNICAMP, até porque tenho lembranças muito felizes deles, mas me lembro de um professor de filosofia se referir à totalidade do pensamento de Foucault como sendo um “micro-pensamento”. Alguns outros professores, na Faculdade de Educação, até achavam interessante ler Foucault mas consideravam Vigiar e Punir um livro muito “paranóico”. Muitos preferiam Gramsci.

Mas essas eram críticas muito leves: a quantidade de comentários diretos e indiretos que ouvi a respeito de que a leitura de Foucault era coisa de GLS, per(in)vertidos sexuais, bichas enrustidas ou assumidas (mas sempre “alienadas”); de que todo essa papo de minorias, de lutas setoriais, de análise da politização do corpo, de lutas contra as discriminações em qualquer tipo de sistema econômico fossem, no fim das contas, uma espécie de atitude contra-revolucionária, já que elas constituíam uma atitude muito mais libertária, mesmo anarquista, que não se sujeitava à disciplina partidária (o PC do B, particularmente, achava Foucault o máximo do individualismo burguês, um conservador disfarçado de esquerdista). E para terminar: muita gente da esquerda do PT, o PC do B, o PSTU, PCO não podiam ouvir falar em livros como Microfísica do Poder, em especial o capítulo sobre a verdade e os intelectuais, pois não suportavam as críticas de Foucault contra o  regime de partido único, do partido como centro da consciência revolucionária e histórica da classe operária, e principalmente a um dos conceitos mais caros à esquerda, o de Ideologia, que era jogado na lama no livro supra-citado.

Hoje o que eu percebo é uma verdadeira hojeriza ao nome de Foucault – como se ele fosse o último Comunista, o último grande esquerdista, ou a fundamentação teórica para todos os relativismos culturais, ou pior, para todos os terrorismos. Antes Michel Foucault era tido como individualista e conservador; hoje lê-se sobre o “bonde do Foucault” na imprensa e nos blogs. O que houve?

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